Favelas na luta contra o coronavírus

Mais do que atuar nas urgências que a pandemia apresenta, o desafio é pensar no porquê da vulnerabilização dessas populações, o local onde as tramas tecidas pelas dinâmicas das desigualdades sociais se desenrolam com mais força.

Foto: leungchopan / Envato Elements

Foto: Bruno Itan / Olhar Complexo

Favelas: riscos maiores para 6% da população brasileira durante a pandemia

Os espaços territoriais forjados pelas desigualdades têm nas favelas brasileiras um de seus mais evidentes exemplos. Entendidas como territórios de exclusão, mas também de resistência, as favelas foram historicamente naturalizadas por meio de dinâmicas políticas e econômicas em face de nossa tradição colonial que hierarquiza e subalterniza determinadas populações.

É o caso de moradores de favelas e populações indígenas, por exemplo. No entanto, chamar uma pessoa de “vulnerável”, é correr o risco de criar um rótulo reduzindo o sujeito a uma condição que não lhe é própria, mas resultante de dinâmicas e enredos sociais que não asseguram os direitos básicos, como saúde, educação, justiça, saneamento etc.

Foto: Naná Prudêncio / Divulgação

Mais do que atuar nas urgências que a pandemia apresenta, o desafio é pensar no porquê da vulnerabilização dessas populações, o local onde as tramas tecidas pelas dinâmicas das desigualdades sociais se desenrolam com mais força. Ainda que os números da epidemia em escala global, nacional, estadual sejam importantes, ao mesmo tempo podem servir para tornar invisíveis as razões das vulnerabilidades. É nesse sentido que se justifica olhar o comportamento da doença num dos principais espaços forjados pelas desigualdades no Brasil: as favelas.

Foto: Tânia Rêgo

Imagem: Prefeitura do Rio de Janeiro

Imagem: Prefeitura do Rio de Janeiro

Número de favelas dobrou em uma década

O Brasil é um dos países em que a urbanização mais tem se dado em favelas. Em função de a doença ter vindo de outros países, os primeiros casos foram notificados em cidades de maior porte conectadas por vias aéreas. Porém, ao longo do tempo, o processo de disseminação atingiu fortemente as áreas de favela.

Em 10 anos o número de municípios com presença de favelas partiu de 323 municípios em 2010 para 734 municípios em 2020, um aumento de 44% (IBGE, 2020a). Segundo o IBGE (idem), com base na análise de dados estimados para prévia de Censo 2020, que ocorrerá em 2021, o Brasil possui 13.151 favelas, sendo os municípios de São Paulo e Rio de Janeiro os que concentram a maior quantidade de domicílios nesses locais. Na Figura 1 pode-se ver a proporção de domicílios em favelas por estado e regiões do Brasil.

Alta densidade e baixo distanciamento social

Em termos urbanísticos, as favelas se caracterizam pela alta densidade populacional, que teve aumento de mais de 60% entre 1991 e 2010. São populações inteiras vivendo em habitações precárias; com oferta insuficiente de serviços públicos, como falta de abastecimento de água e coleta de lixo, entre outras precariedades (IBGE, 2018). A noção de determinação social da saúde nos fornece lentes potentes para analisarmos esse conjunto de questões que envolvem as más condições de saúde dessas populações. Para agravar ainda mais esse cenário, os moradores de favela, em sua maioria, não podem trabalhar de casa, remotamente, e muitos perderam o emprego e suas fontes de renda devido à pandemia. Tudo isso impede que parte significativa desse contingente populacional siga as medidas de distanciamento social e se beneficie de ações de proteção contra a doença, aumentando o risco de exposição ao contágio.

Foto: Movimento Social da Favela da Roçinha/TV Globo

Foto: Instituto Claro

A doença é mais letal entre idosos moradores de favelas

Esta tem sido uma realidade comum e corriqueira na maior parte das favelas espalhadas pelo Brasil, que são os lares de 17,5 milhões de brasileiros (6% da população), segundo dados do IBGE 2019. Isso significa dizer que uma população equivalente à das maiores capitais do mundo, como Moscou, São Paulo e Jacarta, apresenta condições de vida que contribuem para o risco de adoecer e morrer por coronavírus.

O Boletim Socioepidemiológico elaborado por pesquisadores da Fiocruz com dados de favelas cariocas mostra que as taxas de letalidade entre idosos são até duas vezes maiores em bairros com alta ou altíssima concentração de favelas − e a cidade do Rio de Janeiro é a que concentra a maior população morando nessas habitações: 1,4 milhão de pessoas ou 22% do total. Isso significa que 1 em cada 5 cariocas tem seu endereço localizado em uma das 763 favelas (IBGE, 2010) espalhadas pela capital, mas nem sempre isso está refletido corretamente no CEP.

Favelas concentram 13,2% das mortes por Covid-19 na capital carioca

As favelas concentram características ambientais propícias para a rápida propagação do coronavírus: segundo o Censo 2010, além da alta concentração de pessoas por domicílio, a maioria das casas tem pouca iluminação natural (60,3%), pouca ventilação natural (61,1%) e pouco espaço físico (67,1%). Esses territórios são marcados pelo fornecimento irregular de água, pela coleta de lixo deficiente e por esgoto a céu aberto − enfim, más condições de saneamento básico que provocam insalubridade no cotidiano dessas populações. Essas condições, somadas a um contexto de extrema vulnerabilidade social, fazem com que as favelas brasileiras sejam fortemente atingidas por doenças como cólera, dengue, Zika e tuberculose e concentrem indicadores precários em saúde. Com a Covid-19, o resultado não poderia ser mais devastador. Levantamento divulgado em dezembro pelo Painel Unificador Covid-19 nas Favelas mostra que, das 14.860 mortes por Covid-19 ocorridas na cidade do Rio de Janeiro, 1.967 foram em favelas.

Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Foto: Habitat para a Humanidade Brasil

Essas mortes são invisíveis para a sociedade, já que sua magnitude não é revelada nas estatísticas oficiais. Para chegar a dados mais próximos da realidade, tanto o Painel Unificador Covid-19 nas Favelas quanto as edições do Boletim Socioepidemiológico da Covid-19 nas favelas organizado pela Fiocruz se alimentam de informações obtidas por esforços de lideranças locais em parceria com as unidades de atenção primária de base territorial, em complementariedade aos dados oficiais.

Mortes invisíveis

um número que só aumenta

Há diversas questões associadas à incapacidade de os dados oficiais refletirem a realidade em termos de número de casos e mortes nas favelas:

Foto: Paulo Desana

Foto: Reprodução Redes Sociais

1. Um mesmo Código de Endereçamento Postal (CEP) pode conter dezenas de favelas

Excetuando Rocinha, Jacarezinho, Complexo do Alemão e Vila Kennedy, a maioria das favelas são menores e estão localizadas dentro de um bairro ou atravessando mais de um e não têm CEP próprio. Como os dados oficiais de Covid-19 estão organizados e disponibilizados por CEP, muitas dessas favelas ficam de fora das estatísticas.

2. Nem todos os segmentos de ruas nas favelas têm CEP

Em grande parte das vielas e becos, essa numeração não existe. Até o presente momento, com o levantamento do CEP de 74 favelas, identificou-se que 58% dos segmentos de ruas não possuem informações sobre CEP (Gracie e Scofano, 2020) e, quando existe, trata-se de um ou de poucos códigos para uma mesma favela. Códigos esses que podem se referir ao bairro mais próximo e não necessariamente à favela. Isso significa que temos em Bonsucesso a possibilidade de haver registro de casos e mortes do Morro do Adeus, parte do Morro da Baiana, também Nova Holanda, Baixa do Sapateiro e Manguinhos. Mas todos eles aparecem apenas como Bonsucesso nas estatísticas oficiais. Da mesma forma, os da Rocinha podem estar sendo notificados na Gávea. “Eu moro na Rocinha e o meu CEP diz que é Gávea”, afirma Michel Silva, do Fala Roça e Favela em Pauta.

Foto: Dhani borges

"Eu fico sempre impressionado que já temos 125 anos de favela e a gente vive o drama de origem: Quantos somos? Onde estamos? É impressionante porque, mesmo com os avanços com os dados do IPP e do IBGE, a gente vive um conflito de números que é impossível, até hoje, alguém bater o martelo e dizer: 'Na favela tal moram tantas pessoas, é dessa forma’."

(ITAMAR SILVA, Grupo ECO Santa Marta)

Foto: Agência Brasil

3. Baixo número de testes realizados

As menores taxas de incidência nos bairros com alta e altíssima concentração de favelas estão diretamente relacionadas à baixa realização de testes laboratoriais nesses locais.

“Apareceu a Gávea entre os bairros com o maior índice de casos e, com certeza, inclui a Rocinha. A Rocinha também sofre, como várias favelas da cidade, com falta de reconhecimento de logradouro, que é um direito que é negado à população favelada. É uma luta de décadas. Histórica. Até hoje poucas favelas conseguiram, e isso super prejudica o que a gente poderia fazer para cobrar uma política pública diferente.”
SIMONE RODRIGUES, Coletivo Rocinha sem Fronteiras

A realidade é desigual

Produzir uma análise de casos de Covid-19 que consiga dar visibilidade às áreas de favelas no Rio de Janeiro ainda é um grande desafio. Por essa razão, um grupo de pesquisadores do Observatório Covid-19 da Fiocruz desenvolveu nas duas edições do Boletim Socioepidemiológico uma metodologia que classificou os bairros em 5 grupos: bairros sem favelas, concentração baixa, concentração mediana, concentração alta e concentração altíssima de favelas. Com base nessa divisão, foram calculados os indicadores epidemiológicos de incidência, mortalidade e letalidade em dois períodos: do início da pandemia, em março, até 21 de junho de 2020, e de 22 de junho a 28 de setembro de 2020. Importante destacar que os três indicadores sofrem influência do baixo número de testes realizados. De qualquer forma, eles oferecem um retrato de dois momentos da pandemia: início e a nova realidade anterior ao novo pico.

Foto: Rio on Whatch

Incidência

(casos confirmados/população X 10.000)

Cabe uma explicação sobre o indicador. Dizer que a taxa de incidência foi de 70,7 por 10.000 habitantes entre março e junho de 2020, significa que, naquele período, observou-se que, a cada 10.000 pessoas da cidade do Rio de Janeiro, 70 adoeceram por Covid-19.

Foto: Gui Christ/National Geographic

A trajetória da pandemia - Incidência: primeiro Boletim

Período de análise: do início da coleta dos dados até 21/06/2020.

0
Casos confirmados
Mulheres (26.209)
52.7%
Homens (23.495)
47.3%
Brancos (13.361)
26.9%
Negros (12.845)
25.8%
Amarelos (1.051)
2.11%
Indigenas (31)
21.924 0.1%
Sem informação sobre raça e cor (22.416)
45.1%

O percentual de casos entre os negros é muito maior em áreas com alta e altíssima concentrações de favelas.

Incidência – Primeiro Boletim

A baixa realização de testes laboratoriais nos bairros com alta e altíssima concentração de favelas se traduziu em taxas de incidência menores em relação aos bairros com baixa concentração, explicitando as desigualdades de acesso às ações de saúde da população residente nesses territórios. Com isso, foi registrada uma maior incidência na fase inicial da doença nos bairros sem favelas do que entre os bairros de altíssima concentração.

Casos registrados

Bairros com baixa concentração de favelas:

0
por 10.000 habitantes

Bairros com altíssima concentração de favelas:

0
por 10.000 habitantes

A trajetória da pandemia - Incidência: segundo Boletim

Período de análise: 22/06/2020 a 28/09/2020

0
Casos confirmados

Bem menos do que os observados no primeiro boletim. Apesar da ampliação da testagem, ela ainda é baixa e distribuída de forma desigual pela cidade.

Casos em favelas (2.529)
5%

bairros classificados como alta e altíssima concentração de favelas.

No município, a taxa de incidência por raça/cor foi maior na população negra, chegando a ser duas vezes maior nos bairros sem favelas. Ela é maior em bairros com e sem concentração de favelas, escancarando as desigualdades de cor e raça nesta pandemia.

0 %
dos pacientes são negros

Entre as localidades com altíssima concentração de favelas, as maiores taxas de incidência ocorreram em

Vidigal: 0
por 10.000 habitantes
Barro Filho: 0
por 10.000 habitante

A taxa de incidência no município para o período foi 67,74 casos por 10.000 habitantes.

FOTO: EBC

Mortalidade

Óbitos confirmados/população X 10.000

A trajetória da pandemia - Mortalidade: Primeiro Boletim​

Período de análise: do início da coleta dos dados até 21/06/2020.

Assim como na incidência, foi observada uma taxa de mortalidade maior nos bairros classificados como “sem favelas” e de “concentração baixa” de favelas

sem favelas: 0
por 10.000 habitantes
com favelas: 0
por 10.000 habitantes

Aqui, de novo, a explicação pode estar relacionada aos baixos índices de testagem nas favelas, principalmente no início da pandemia.

Da mesma forma, o baixo número de pessoas testadas no início da pandemia pode explicar a baixa taxa de mortalidade por 10.000 habitantes no Complexo do Alemão (0,7) e no Vidigal (9,2)

Morro do Alemão: 0
por 10.000 habitantes
Morro do Vidigal: 0
por 10.000 habitantes

Vidigal apresentou um índice ligeiramente maior do que a média da cidade de 8,3 óbitos por 10.000 habitantes.

Mortalidade – Primeiro Boletim

O dobro de negros morreu por Covid-19 em áreas de altíssima concentração de favelas (40% dos óbitos) em relação a bairros sem favelas (20%), no início da pandemia. O índice também é maior do que o percentual geral para a cidade, de 30,9%.

Óbitos registrados

Bairros sem favelas: 0 %
dos óbitos são negros
Bairros com favelas: 0 %
dos óbitos são negros

A trajetória da pandemia - Mortalidade: Segundo Boletim

Período de análise: 22/06/2020 a 28/09/2020

Óbitos por Covid-19 no município do Rio de Janeiro

0
Óbitos confirmados
Óbitos em favelas (111)
6%

bairros classificados como alta e altíssima concentração de favelas.

Entre os óbitos

Negros
48.2%
Brancos
31.1%
Amarelos
0.5%
Indígenas
0.05%

A mortalidade entre negros é maior tanto em bairros sem favelas como em bairros com alta concentração de favelas:

Nos bairros com baixa concentração de favelas, a taxa de mortalidade é de:

0
óbitos por 10.000 habitantes para a população negra.
0
óbitos por 10.000 habitantes para a população branca.

Foto: Divulgação

Letalidade

Óbitos/casos X 100

A trajetória da pandemia - Letalidade: Primeiro Boletim

Aspectos que influem neste indicador:

  • Doenças pré-existentes, como hipertensão, ou fatores de risco, como tabagismo (ato de fumar), que podem agravar um caso e levar ao óbito.
  • Restrições do acesso aos serviços e ações de saúde: testagem, assistência médica e social (redes de suporte) em tempo oportuno para que um caso não agrave e oferta de leitos − em especial os de cuidados intensivos.
  • A letalidade foi maior nos bairros com alta e altíssima concentração de favelas.

    0 %
    taxa de letalidade nas favelas
    0 %
    taxa de letalidade em todo o município

    o que comprova o aspecto desigual da doença na cidade. Nessas localidades, a cada 100 pessoas que adoeceram por Covid-19, quase 20 morreram por causa da doença.

    A trajetória da pandemia: Letalidade - Primeiro Boletim

    Período de análise: do início da coleta dos dados até 21/06/2020.

    A taxa de letalidade entre os idosos foi mais alta nas áreas de “Concentração alta” e “Concentração altíssima” de favelas e pode ser até duas vezes maior nessa faixa etária.

    0 %
    de taxa de letalidade entre idosos em áreas de favela.

    Entre os bairros com dezenas de favelas, o Complexo do Alemão liderou a taxa de letalidade com 45,4%, quatro vezes maior que o valor para a cidade.

    0 %
    de taxa de letalidade entre idosos no Complexo do Alemão.

    A trajetória da pandemia: Letalidade - Segundo Boletim

    Período de análise: 22/06/2020 a 28/09/2020

    As taxas de letalidade caíram no Rio de Janeiro como um todo, mas ainda permaneceram quase duas vezes maiores que o valor da cidade em bairros com altíssima concentração de favelas. Esse índice foi maior em:

    0 %
    Acari
    0 %
    Complexo do Alemão
    0 %
    Costa Barros

    Os dados dos dois boletins evidenciam situações desiguais e de invisibilidade dessas desigualdades. Eles são disparadores de reflexões, questionamentos e críticas a respeito de como vem ocorrendo o processo de monitoramento da doença no município do Rio de Janeiro, principalmente no que se refere às possibilidades metodológicas de produção de informação que proporcionem visibilidade às más condições de saúde nas favelas cariocas.

    Por que a Covid-19 é mais implacável nas favelas

    Isso ocorre devido à determinação social do processo saúde-doença, que torna o coronavírus ainda mais perigoso e letal nesses territórios.
    Diversas dinâmicas sociais e políticas concorrem para esse agravamento. Confira a seguir.

    Foto: imagem: divulgação/EBC

    Foto: Ana Beatriz Felicio/Agência Mural

    1. Características de moradia

    Entre os desafios históricos e centenários relacionados às favelas, destacam-se as moradias com baixa ventilação, iluminação e espaço, a alta densidade domiciliar e a deficiência no acesso aos serviços públicos.

    2. Espaços coletivos

    A estrutura urbana da favela tem no uso coletivo de seus espaços comuns − ruas, becos, praças e quadras – uma importante referência para o convívio social.

    Foto: Rio on Watch

    Fernando Frazão/Agência Brasil

    3. Falta de saneamento básico

    Segundo o IBGE, 34,7% dos municípios do país registraram endemias ou epidemias de doenças ligadas ao saneamento; a maior parte dos registros é de dengue, diarreia, verminoses, chikungunya e zika.

    4. Altíssima desigualdade social e de renda

    Há uma enorme concentração de negros (pretos e pardos autodeclarados) nas áreas de favelas – em nenhuma delas, o percentual de negros é menor que 50%. A média de renda nominal nos bairros formais é até três vezes maior que a renda média nas favelas.

    Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

    Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    5. Altas taxas de informalidade

    Um grande contingente populacional de moradores de favelas são trabalhadores informais. Muitos destes perderam suas fontes de renda e outros são impossibilitados de realizar o isolamento, acentuando "a já acelerada velocidade de contágio na direção de territórios populares" (Observatório de Favelas, 2020). Os que possuem algum tipo de estabelecimento comercial/empresarial, ou neles trabalham, também têm enfrentado uma profunda queda no movimento/faturamento dos seus empreendimentos, mesmo considerando que alguns caminham na contramão das orientações sanitárias.

    6. Transporte público superlotado

    Intenso uso do transporte público pela população, especialmente trabalhadores e estudantes. Agravando essa situação, durante a pandemia, várias empresas diminuíram o número de veículos nas linhas que interligam a cidade, aumentando ainda mais a lotação e circulação de passageiros.

    Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

    Foto: Gui Christ/National Geographic

    7. Elevada incidência de outras doenças

    Boa parte dos moradores apresentam condições de saúde já comprometidas, como a alta prevalência de tuberculose (Pereira et al., 2015), quadros de hipertensão, cardiopatias e diabetes (Sawaya et al., 2003).

    8. Altos índices de violência

    Os espaços de favela são os territórios que concentram os maiores índices de violência urbana no país. Em 2017, 35.783 jovens foram assassinados no Brasil. Esse número representa uma taxa de 69,9 homicídios para cada 100.000 jovens no país, taxa recorde nos últimos dez anos (Atlas da Violência 2019). No Brasil, os homicídios são a principal causa de mortalidade de jovens, grupo etário de pessoas entre 15 e 29 anos. Esse fato mostra o lado mais perverso do fenômeno da mortalidade violenta no país, na medida em que mais da metade das vítimas são indivíduos com plena capacidade produtiva, em período de formação educacional, na perspectiva de iniciar uma trajetória profissional e de construir uma rede familiar própria (Atlas da Violência 2020).

    Foto: Naná Prudêncio / Divulgação

    “Aqui no Jacarezinho, o desemprego aumentou muito, temos famílias inteiras desempregadas. Mesmo os dados desatualizados e precários podem servir de parâmetro pra gente.”

    RODRIGO, MMU, Jacarezinho

    Foto: Dhani borges

    9 recomendações

    sobre a Covid-19 nas favelas

    Mesmo na iminência das vacinas já aprovadas em janeiro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a situação continua sendo uma crise sanitária e humanitária que exigirá resposta urgente, coordenada e estruturada para garantir a saúde das populações das favelas, expostas a um risco até duas vezes maior de morrer por coronavírus, no atual cenário e após a pandemia. Apresentamos a seguir nove ações para fortalecer as políticas públicas e apoiar a resposta das favelas no Rio de Janeiro e no Brasil no enfrentamento da Covid-19 durante e depois da pandemia. Elas foram elaboradas e organizadas por um grupo de pesquisadores da área da saúde das favelas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

    Foto: Naná Prudêncio / Divulgação

    Foto: Naná Prudêncio / Divulgação

    1. Testagem em massa pelo PCR com foco nos casos sintomáticos e seus contatos

    O baixo número de testes realizados para Covid-19 dificulta dimensionar a magnitude da doença nos espaços periféricos de todo o país. Por essa razão, a realização de testagem em massa pelo serviço público de saúde é uma estratégia essencial para reduzir as desigualdades de acesso à realização do exame, articulada ao trabalho da Atenção Básica de orientação, notificação, cuidado, acompanhamento dos casos e rastreamento de contatos, assim como para possibilitar a compreensão do padrão da doença nos grupos socialmente vulnerabilizados.

    2. Garantir a efetividade do Sistema Integrado de Vigilância em Saúde de base territorial

    Disponibilizando informações em diferentes níveis e recortes territoriais. Esses dados permitem qualificar as ações de vigilância em saúde que são realizadas, como o monitoramento dos casos suspeitos, a identificação de grupos vulnerabilizados, situações de comorbidades e a formulação de ações intersetoriais com outros grupos, como os movimentos sociais e interlocutores locais. Com isso, é possível valorizar e validar a experiência de vida e trabalho de moradores, lideranças e grupos que também produzem conhecimento.

    Foto: Prefeitura de Jundiaí

    Foto: Divulgação

    3. Assegurar auxílio econômico continuado e o acesso a ele nas favelas

    Grande parte da população é formada por trabalhadores informais ou inseridos em serviços essenciais e, por isso, apresentam menos possibilidades de fazer distanciamento social. Portanto, moradores de favela estão mais sujeitos a perda de renda e às suas consequências durante e após a pandemia.

    4. Proteção social específica aos trabalhadores

    Deve-se dar atenção especial aos mototaxistas, aos trabalhadores do comércio local, aos profissionais de saúde e assistência social que trabalham/vivem no local, e aos que trabalham em outros serviços essenciais (supermercados, farmácias etc.). Sem muitos cuidados, eles podem ser vetores importantes da difusão do vírus nas favelas e são mais expostos a adoecer. É preciso garantir orientações sobre medidas preventivas e fornecimento de materiais de proteção individual, de limpeza e higiene.

    Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

    Foto: Prefeitura de Macapá

    5. Garantir a prestação de serviços de limpeza urbana e fornecimento de água

    Garantir a prestação de serviços de limpeza urbana de maneira continuada e o fornecimento regular de água em todas as regiões da cidade. Durante todo o ano de 2020, moradores denunciaram diversas vezes a falta de água nas favelas, tornando inviável não só a prevenção adequada ao contágio pelo novo coronavírus, como a própria qualidade de vida naqueles territórios.

    6. Aprimorar a produção de dados georreferenciados das favelas, de modo a conseguir uma informação epidemiológica mais precisa desses territórios

    A inexistência de um CEP específico para as favelas acaba por perder ou diluir a informação desses territórios no contexto mais amplo dos bairros. Esse problema é acentuado ainda mais porque os recortes territoriais de diferentes setores da administração pública, como as áreas programáticas (saúde), regiões administrativas (gestão) e coordenadorias regionais de educação (CREs) não coincidem entre si. Considera-se importante atualizar os arquivos geoespaciais que delimitam as favelas da cidade do Rio de Janeiro, pois a última atualização é de 2013.

    Foto: Shutterstock / Donatas Dabravolskas

    Foto: Bruno Campos / Prefeitura de Macaé

    7. Fortalecer o papel das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs)

    Tendo em vista serem estas a porta de entrada do sistema. Além de ser o serviço de primeiro contato para o atendimento à Covid-19, a Atenção Primária em Saúde é também a mediadora para a vigilância epidemiológica, a ordenadora do cuidado para os demais serviços da rede de saúde e a principal responsável pelas ações de imunização da população.

    8. Prioridade no Plano de Vacinação

    Levar em consideração a histórica vulnerabilização dessa população e priorizá-la no Plano Nacional de Vacinação.

    Foto: Phillip Ritz

    Foto: REUTERS/Lucas Landau

    9. Ações conjuntas de defesa da vida

    Há de se fazerem esforços, no contexto da pandemia da Covid-19, para produzir a convergência do sistema de justiça com o trabalho de outros agentes públicos, ressaltando o protagonismo da saúde pública na condução das ações de vigilância em saúde de base territorial e da defesa da vida.

    Todo apoio aos moradores

    Para além das políticas públicas listadas acima, é estratégico, solidário e ético apoiar iniciativas que surgiram nas favelas e continuam ao longo de toda a pandemia. Isso ajuda também a otimizar recursos. Unidos em coletivos e redes, os moradores têm se organizado e estão construindo estratégias para enfrentar a doença e suas desigualdades. As iniciativas variam entre dar visibilidade aos dados sobre a ocorrência da doença e buscar soluções alternativas em face da insuficiência das ações do poder público.
    <br>
    Desde o início da pandemia, há diversas ações da chamada vigilância civil, que se baseia em informações e conhecimentos produzidos pela experiência de quem trabalha e vive no território. Iniciativas de coleta de dados nas favelas cariocas, como o Portal Covid-19 nas favelas do Voz das Comunidades e o Redes da Maré, dão visibilidade a casos suspeitos, confirmados e de óbitos por Covid-19. Em geral, esses coletivos combinam informações oficiais da secretaria municipal de saúde, das unidades de saúde da família e de informantes-chave locais. Buscando agregar essas diversas iniciativas, surgiu o Painel Unificador Covid-19 nas Favelas. Ele oferece, hoje, um dos quadros mais aproximados do comportamento da doença nesses territórios.

    Foto: Nicoló Lanfranchi/The Guardian

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